HEITOR ALVELOS

Professor de Design e New Media, Universidade do Porto, Portugal

This text was published in LIVE TRANSMISSION MACAU a catalog published by the Museu Arte de Macau / Macau Art Museum, People’s Republic of China in conjunction with O'Hara's solo exhibition in 2005. Tri-lingual catalog: Chinese, Portuguese and English.

EMPATIA NUMA ERA DE MEDIAÇÃO

Existe um sentido de inevitabilidade no trabalho de Morgan O'Hara. Estes desenhos precisam de existir, quer como excelentes exemplos de uma abordagem artística cada vez mais rara, quer como reflexos rigorosos da cultura mediática contemporânea. Este aparente paradoxo desdobra-se nas mais diversas variações: uma qualidade de intemporalidade contida no acto performativo, imediato, de desenhar; uma prática de humildade, reveladora de profunda complexidade quando contemplada em pormenor; um trabalho de fundo exaustivo, mas igualmente um trabalho de filtragem altamente sofisticado; universal, e ao mesmo tempo incrivelmente pessoal.

Numa era dominada pela abundância de imagens mediáticas, gravações de vídeo e fotografia digital instantânea, encontramo-nos mais e mais dependentes dos media de modo a legitimar a nossa experiência do mundo. Parecemos necessitar de ver o que nos rodeia por um gravador digital de modo a acreditarmos que as coisas estão relamente "ali", de modo a acreditarmos que os outros existem. O trabalho de Morgan O'Hara prova que um modo mais caloroso de nos relacionarmos com o mundo é possÌvel e desejável. O seu trabalho permanece profético na sua ambição de documentar toda e qualquer actividade humana, tal como a nossa cultura mediática é essencialmente caracterizada por uma sobre-abundância de referências e por uma capacidade de armazenamento de dados infinitamente crescente. Mas o trabalho de O'Hara e os sindromas mediáticos contemporâneos diferem profundamente nos seus processos e propósitos.

Morgan O'Hara trabalha com os seus objectos de estudo seguindo um princípio essencial de empatia, impossível de replicar quando se regista qualquer actividade humana pelo visor de uma câmara de vídeo. Ao contrário da relação assimétrica ditada pela tecnologia digital contemporânea, as "Live Transmissions" de O'Hara estabelecem, antes de mais e acima de tudo, uma comunhão entre o ser activo e o criador, entre o observador e o observado. Ao invés de se distanciar daquilo que representa de modo a destilar a sua essência, O'Hara escolhe tornar-se naquilo que representa, algures entre instinto e intelecto, mas seguramente para além de ambos. Neste processo, ela age como um filtro, como repórter sábio do conhecimento humano revelado nas práticas humanas, uma criatura activamente fixada na missão quase-zen de ser aquilo que contempla em tempo real, totalmente focada, totalmente alerta, esquecida de si própria. Por outras palavras: as "Live Transmissions" são o oposto do zapping televisivo, qualquer que seja o modo sob o qual escolhamos observá-las.

O trabalho de O'Hara È baseado na ambição de cartografar todo o movimento que nos rodeia, plenamente consciente de que o arquivo resultante nunca será completado. Os seus desenhos são valiosos documentos, mas não são simplesmente o resultado do processo de empatia acima descrito: são, isso sim, o meio segundo o qual esse processo pode acontecer. Uma vez terminada a "Live Transmission", os desenhos tornamse na sua evidência. Esta é a razão pela qual estes desenhos se encontram carregados de energia: eles contam a história da transformação, de um ser tornando-se no outro. É por esta razão que, apesar de constituirem um gigantesco arquivo da actividade humana, os desenhos de Morgan O'Hara não se extinguem nesta vocação taxonómica. Eles são todos o mesmo exacto acto de empatia, ensaiado em contextos infinitamente renovados, tal como o mesmo gesto adquire novos sentidos de cada vez que é encenado.

Existe um sentido de inevitabilidade no trabalho de Morgan O'Hara, uma urgência contida na sua necessidade de traduzir a actividade humana de modos tão delicados, tão complexos, tão exaustivos, tão belos. Que sejamos convidados a contemplar estas representações visuais tão expressivas e profundas numa era saturada de mediação instantânea, é mais que um motivo de júbilo: É uma oportunidade única para reaprendermos a arte de ver.

Oporto, Portugal 2005